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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Aleatório.

-Eu já terminei,posso ir?
-Não, só 10h30min. Você já foi assaltada?
-Bom, se assalto é quando te tiram algo fui assaltada quando nasci, me tiraram o direito de escolha.
-Nossa, um xeque-mate. Filosófica demais.
-Isso é uma aula de filosofia,certo? Ou só aparenta ser?
-Conhecimento ou aparência de conhecimento?
-Aparência.
-Não, é conhecimento! A TV nunca me falou em aparência!
-A Tv diz que há muita violência e, acredite, se você for checar as pessoas que você conhece que foram assaltadas são minoria.
-Mentira, eu sei que é!
-Você não sabe, acha que sabe.
-Ahn?
-Viu, aparência de conhecimento.
-Mas a Tv...
-Esquece a Tv, ela não diz o que você é.
-Ela sabe! Eu sou da classe média,um neo-pobre.
-Você só é classe média porque essa é maioria e a Tv fala no plural.
-Mas...
-Que sabes do que serás?Tu, que não sabes o que és.
-Quer biscoito?





Bárbara Reis- 30 de abril de 2009. Às 9:36 am.( de acordo com meu relógio)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sobre a infância, vovô e vovós.


Eu queria tanto que me enxergassem mais como eu sou e menos como eu gostaria de ser. As pessoas de meu convívio diário(pelo menos fora de casa) construíram uma imagem minha que não passa disso, uma imagem. Algo que eu gostaria de ser e não sou.
A imagem de alguém frio, calculista, forte e incapaz de se emocionar por qualquer coisa.
Essa não sou eu, essa é quem eu quero que seja reconhecida. Emotiva demais, mais instável do que seria saudável, menos feliz do que realmente parece, menos segura do que transparece, alguém que gosta do verão e tem preferido o inverno.
E tudo isso me traz uma lembrança nostálgica da minha infância, da criança tímida e séria que eu fui, da menina alegre e contida que não sabia muito bem expressar o seu afeto pelos outros. Essas memórias ainda me trazem outras, elas trazem de volta as tardes na casa dos meus avós paternos, as risadas na cozinha, a correria no quintal, as brincadeiras naquela piscinina de plástico...
Eu, meus irmãos e minha prima escorregando pelo corredor quando a piscina era desmontada e toda aquela água corria, finalmente livre. Depois o lanche e vovô com toda aquela paciência para contar suas histórias dos antigos bailes da sua adolescência...
Vovó contava algumas histórias engraçadas do hospital nos fazia rir tanto,tanto. Hoje é como se uma parte de mim tivesse partido... Vovô na varanda, com aqueles óculos que ele tanto reluta em usar lendo seu jornal, logo depois de ter cuidado dos cachorros. Eu estava chegando da escola e ele ia me levar para o curso de inglês, o cheiro do almoço perfumava a casa... Como eu era feliz e não sabia, como eu era feliz e não dava valor a isso.
E isso me lembra... A minha doce avó materna, a comida mais bem feita que eu já comi, alguém com um coração gigante, uma mulher que como minha outra avó desafiou as regras de sua época. Eu me lembro de vovó nos deixando na escola e correndo para ir dar aula. Eu me lembro da dedicação que ela tinha com os seus alunos.
Acontece, que hoje, já não é assim. Não sou mais a criança. Hoje eu sou a neta mais velha. Hoje eu ajudo as minhas avós saírem do carro e chamo a atenção do meu avô por carregar peso demais. Sim, é um exagero. Minhas avós são muito ativas se comparadas a outras pessoas da idade delas. Tomam poucos remédios e a hipertensão de uma delas é super controlada. Mas eu tenho tanto, tanto medo de perdê-las, eu tenho tanto, tanto medo de chegar a hora e eu não as ter conhecido. De não ter aprendido os macetes médicos que vovó Marthinha tem que ensinar ou o nome de metade das ervas que vovó Meninha conhece.
E sobre vovô, a pessoa mais equilibrada que eu já conheci, eu não sei exprimir o que eu sinto. Acho que é a pessoa a quem eu mais amo. Sempre tão engraçado, tão paciente... tão saudável. Sempre achei que vovô não tomasse remédios... Foi um choque descobrir que ele toma remédios para o coração... logo ele, com um dos corações mais belos que eu já conheci.
Foi um choque descobrir que o super herói da minha infância é de carne e osso. Chega, meus olhos estão molhados demais, não tô enxergando direito as teclas.





Obs.: Meu avô materno não é citado por nunca ter se comportado como tal. Ele, no entanto, ainda existe.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A formiga.

Era uma vez uma formiga.
O mundo dela era constituído por um quadrado de grama, tudo o que a pequenina formiga conhecia estava ali, em seu grande quadrado de grama.
Todos os dias nossa pequena aventureira caminhava de uma extremidade a outra de seu quadro carregando uma folha. Para ela, a caminhada era retilínea, uniforme, correta. No entanto, um observador a veria torta,estranha, formando uma parábola. Ele não entendia como um ser tão pequeno poderia cometer desvios tão grandes em uma trajetória tão curta. E a intensidade desses pensamentos foi dominando o observador, ele percebeu que era grande,forte - uma ameaça potencial à vida da formiga. Ela,então,alcançou o lado oposto; deixou a folha e se preparava para voltar quando o observador resolveu pisar no quadrado de grama.
Ele decidiu que era hora de acabar com o caminho torto da formiga.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sábado, 4 de abril de 2009

Amiga da Sofia.

Sophia não era comum. Fosse por sua pele clara e cabelos escuros, fosse por seus límpidos olhos azuis. Ser amigo de Sophia era um desafio, ela era livre demais para se prender a um sentimento e sábia o suficiente para se apegar a nada.

Acontece, que aqueles que tentavam se aproximar aos poucos foram parando, se afastando. Finalmente,um dia, Sophia descobriu-se só. Apenas a sua voz era ouvida apenas a si mesma aceitava. A vida mostrava-se cada vez mais vazia em sua paz, em sua ausência de conflitos. Sentir-se sufocada tornou-se rotina. E no meio de tudo isso, Sophia começou a perder sua sabedoria.

Em um dia nublado, quando as nuvens pesadas passavam uma sensação especialmente clautrofóbica, Sophia sentiu, de fato, o que era se sufocar. Mesmo o lençol macio machucou seu pescoço, logo após ela perceber que não se faz filosofia sozinho.