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terça-feira, 21 de abril de 2009

Sobre a infância, vovô e vovós.


Eu queria tanto que me enxergassem mais como eu sou e menos como eu gostaria de ser. As pessoas de meu convívio diário(pelo menos fora de casa) construíram uma imagem minha que não passa disso, uma imagem. Algo que eu gostaria de ser e não sou.
A imagem de alguém frio, calculista, forte e incapaz de se emocionar por qualquer coisa.
Essa não sou eu, essa é quem eu quero que seja reconhecida. Emotiva demais, mais instável do que seria saudável, menos feliz do que realmente parece, menos segura do que transparece, alguém que gosta do verão e tem preferido o inverno.
E tudo isso me traz uma lembrança nostálgica da minha infância, da criança tímida e séria que eu fui, da menina alegre e contida que não sabia muito bem expressar o seu afeto pelos outros. Essas memórias ainda me trazem outras, elas trazem de volta as tardes na casa dos meus avós paternos, as risadas na cozinha, a correria no quintal, as brincadeiras naquela piscinina de plástico...
Eu, meus irmãos e minha prima escorregando pelo corredor quando a piscina era desmontada e toda aquela água corria, finalmente livre. Depois o lanche e vovô com toda aquela paciência para contar suas histórias dos antigos bailes da sua adolescência...
Vovó contava algumas histórias engraçadas do hospital nos fazia rir tanto,tanto. Hoje é como se uma parte de mim tivesse partido... Vovô na varanda, com aqueles óculos que ele tanto reluta em usar lendo seu jornal, logo depois de ter cuidado dos cachorros. Eu estava chegando da escola e ele ia me levar para o curso de inglês, o cheiro do almoço perfumava a casa... Como eu era feliz e não sabia, como eu era feliz e não dava valor a isso.
E isso me lembra... A minha doce avó materna, a comida mais bem feita que eu já comi, alguém com um coração gigante, uma mulher que como minha outra avó desafiou as regras de sua época. Eu me lembro de vovó nos deixando na escola e correndo para ir dar aula. Eu me lembro da dedicação que ela tinha com os seus alunos.
Acontece, que hoje, já não é assim. Não sou mais a criança. Hoje eu sou a neta mais velha. Hoje eu ajudo as minhas avós saírem do carro e chamo a atenção do meu avô por carregar peso demais. Sim, é um exagero. Minhas avós são muito ativas se comparadas a outras pessoas da idade delas. Tomam poucos remédios e a hipertensão de uma delas é super controlada. Mas eu tenho tanto, tanto medo de perdê-las, eu tenho tanto, tanto medo de chegar a hora e eu não as ter conhecido. De não ter aprendido os macetes médicos que vovó Marthinha tem que ensinar ou o nome de metade das ervas que vovó Meninha conhece.
E sobre vovô, a pessoa mais equilibrada que eu já conheci, eu não sei exprimir o que eu sinto. Acho que é a pessoa a quem eu mais amo. Sempre tão engraçado, tão paciente... tão saudável. Sempre achei que vovô não tomasse remédios... Foi um choque descobrir que ele toma remédios para o coração... logo ele, com um dos corações mais belos que eu já conheci.
Foi um choque descobrir que o super herói da minha infância é de carne e osso. Chega, meus olhos estão molhados demais, não tô enxergando direito as teclas.





Obs.: Meu avô materno não é citado por nunca ter se comportado como tal. Ele, no entanto, ainda existe.

7 comentários:

Bárbara disse...

Durante a leitura senti a sensação de ser invadida, parecia estar falando de mim. Muito bom sentir isso. Parabéns pela escrita e por poder compartilhar um "desabafo".

blito'nao'pare'pense disse...

as vezes fujo pra esse lugar comum pra seguir em frente.
bela escrita!

Tk"S disse...

Considero a infância como a fase mais perfeita e mágica da nossa vida. Tanta saudade que chega a dar nostalgia. Adorei ler as suas lembranças.

Alê disse...

Bem, eu sempre te vi como uma pessoa muito extrovertida , que sempre está sorrindo e amiga.Claro , você é séria e outras coisas que citou em momentos certos, mas você é o que é , não se preocupe com isso '-' . É chato você ver suas memórias boas passarem despercebidas em sua cabeça , enquanto memórias ruins cismam em ficar conosco . " De não ter aprendido os macetes médicos que vovó Marthinha tem que ensinar ou o nome de metade das ervas que vovó Meninha conhece. " porque que vó sempre tem cheat pra cura ._. ?

Anônimo disse...

Que post nostálgico, também me lembrou minha infância e deu um aperto no peito, mas um aperto bom, de boas memórias. Só de ler "piscina de plástico", "primas", "comida da vovó", uma sensação de nostalgia me invade, Avôs são realmente sensacionais, pena que pouco conheci dos meus vovôs, mas com as vovós tive mta vivência, e amo elas *-*.

Karina disse...

Fui eu aqui em cima, mandei e esqueci de botar o nome u.u.

philosophystrikesagain disse...

bonito e sincero.