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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Marina.

Marina resolveu sentar-se no banco de madeira à sombra da florida acácia amarela. A brisa de primavera brincou com os seus cabelos e fez cócegas na sua face.
Seus olhos sonhadores contemplaram cada pequeno detalhe daquele parque mal cuidado,dos muitos gatos às mães que com muito custo tentavam controlar seus filhos,às senhoras miúdas e muito enrugadas que jogavam milho para os pestilentos pombos.
De repente,passou a carrocinha da pipoca e,na superfície metálica Marina encarou seu reflexo pálido.Na sua imagem apenas os olhos brilhavam,todo resto era apenas um borrão de cores indefinidas e não catalogadas.
Houve então uma reviravolta súbita.A brisa parou por um instante.
Marina levantou-se.Decidiu-se.
A vida subitamente pareceu curta demais para se lamentar e ela resolveu,então,que o caminho para a satisfação começaria por um picolé de uva.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A música alta causa confusão a verdade,entretanto,é que não existem bons argumentos que justifiquem a inexpressão. O som das guitarras,o tom dos gritos faz surgir uma vontade de gritar a letra o mais alto que eu puder,de pular ensadecida.
O estado dos meus tímpanos pouco importa. O que eu quero é ouvir esse rock por vezes sujo e mal acabado.Talvez eu sinta falta dos tempos de pré adolescente,da paixão súbita por pessoas,bandas e livros.É,eu quero de volta minhas paredes repletas de fotos de pessoas que nunca vou conhecer. Eu quero que os risos espontâneos motivados por qualquer coisa voltem.
Eu nunca vou entender essa seriedade fria que move o mundo,essa compostura que olha torto as manifestações do que realmente importa. Essa força que faz com que erros tornem-se inumanos ou que,pior,que o perdão não seja política da empresa. Como se a vida algo tão desimportante quanto uma empresa.
Acho que o que tenta ser dito nesse pequeno fragmento confuso de pensamento,nesse texto,é que tudo está tão mecânico,tão enevoado e sombrio.Mas talvez,seja apenas uma percepção de momento de alguém que se afundou na monotonia por tempo demais.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Insone.

A lembrança dela te acorda. E o gosto daqueles dentes miúdos ainda está na sua boca. Com que frequência há um diálogo entre nós ultimamente? Tudo está fora do lugar,
Você se importa muito pouco.Seu mundo agora tem mais cabelo que altura,você perdeu o rythm e o blues. Um perfeito estranho. Me surpreende que você ainda saiba o meu nome.
E eu estou nessa confusão,contida,calada.Com raiva das pequenas e insignificantes semelhanças entre os nossos dias.Meus pertences espalham-se pelo chão do quarto e eu não me importo nem um pouco em guardá-los.
Picadas de mosquito,o óleo quente espirrando e o fato de eu ter imaginado que a sua janela piscou:nada disso me incomada mais.
Agora,resta saber o que farei com esse amor que corre nas minhas veias e fode com o meu cérebro.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Viva la vida.

Chove papel prateado,taças de champangne são erguidas.A pista de dança é liberada,a noite vai ser boa.As luzes são hipnóticas e as batidas bem ritmadas fazem cada movimento parecer parte de uma coreografia.
Pulos,gritos,alegria alcoólica. Tudo resume-se em sorrisos,frases urradas ao pé do ouvido,sim,urradas.A música está alta demais para que se possa fazer ouvir sem gritar.Beijos intensos,cabelos agora no rosto colados e toda a arrumação começa a desfazer-se.O fim está próximo.
Lágrimas de despedida rolam soltas em rostos conhecidos onde nunca havia-se visto o choro livre e intenso.Então,é como se houvesse um retroceder parcial.O salão está novamente vazio,cadeiras estão fora do lugar,copos e restos sobre a mesa. O papel prateado jaz pisado no chão.
Finalmente acabou.Não estamos mais no ensino médio.

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Caríssimos leitores,alguns de vocês sabem que há dois meses terminei o ensino médio.Porém,apenas agora sinto-me segura o suficiente para mostrar algo que escrevi há algumas semanas como um adeus definitivo. É engraçado,depois de ter alcançado o principal objetivo,a vaga na federal,eu estar sentindo uma saudade tão grande,como deve ser uma abstinência. No entanto,acabou. E,novamente,eu só vou valorizar algo,em sua plenitude,depois de seu término.
Mas,não lamento. Ser a formanda mais nova da turma,com 17 anos recém completos,foi incrível.

ADEUS,ENSINO MÉDIO.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Surrealismo Crônico.

Tudo começou colorido.Com muitas risadas e poucos caprichos. Mas,aos poucos as cores tomaram tons diferentes e reorganizaram-se na tela.
Eu mudei.Você mudou.Mudamos. Juntos ou não,tornamo-nos outras pessoas com o mesmo nome,a mesma aparência.E isso fez,para mim,toda a diferença. Amo-te, a ama. Não existe conciliação e você se preocupa com a minha dor.
Essa confiança tranquila tem mais efeito sobre mim do que teriam palavras violentas ou desdém. Esse suporte,toda essa compreensão transmuta-se em uma aversão voltada do meu meu ID para a minha carne.
Eu não quero um amigo leal,eu não quero um ombro acolhedor.Eu quero o amante canalha e sem escrúpulos,mas você,em sua imensa doçura não compreende. Suas lentes de contato estão trocadas,e então,você enxerga tudo na cor diferente da realidade.
Não se preocupe.Não se zangue.Não se abale.
Tudo dá certo quando chega ao fim. E,finalmente,parece que eu vou acertar.


Carolina.

Luís sujou o dedo com a única gota de sangue presente na folha.