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quarta-feira, 31 de março de 2010

Pelas ruas da Zona Sul.

Caminhando nas ruas bem iluminadas da zona sul
Observo passar o transporte escolar
Repleto de crianças bonitas,bem nutridas
Que são motivo de comoção nacional
Se atingidas por balas perdidas.

Ninguém se importa com as crianças
Do morro que tem vista para a praia
E quando elas crescem e nada conseguem
Dizem que é porque
Fugiram da raia.

É fácil falar do escritório refrigerado,
Ou discutir o assunto regado à boa cerveja holandesa.
Por que a mesma comodidade que venda-nos os olhos
Mergulha outros em tristeza.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O terminal.

Finalmente chegou ao terminal rodoviário.Os semblantes cansados em fila facilmente poderiam representar os muitos outros que passam por ali todos os dias.
Os vendedores,esses sim,são os ilustres desconhecidos de todos os dias. No entanto,as vozes que normalmente anunciam todo tipo de bebida no calor infernal do Rio de janeiro,agora,soam fracas.Como rádio cuja pilha aos poucos se esvai.
O chão,castigado e encardido,está molhado dos pingos de chuva que infiltram o teto e da água que pinga dos muitos guarda chuvas que são sacudidos.Sobre ele ainda há lixo,papéis e inúmeros tocos de cigarro.
Mas não,isso não ilustra a miséria de um ambiente,mas os diferentes níveis da decadência humana. A impaciência torna-se palpável no ar - ou quase. Há muito já foi aprendido que percepções pessoais dos membros da minoria dificilmente são um retrato válido do que se passa com os outros.
A demora é rotina,assim como entreouvir as muitas conversas frívolas. Não leve esses escritos tão a sério.Afinal,ela só tinha 17 anos.




Bárbara Reis-17/03/2010-21:00
Terminal João Goulart/Niterói-Rio de Janeiro.

Centésimo Primeiro.

Claramente eu tenho algo a dizer.Todos temos. Mas,de repente,não mais que de repente,eu sinto um bolo na garganta.A inexpressão.
As dúvidas são tantas,as dores inúmeras e a timidez ainda maior.Não gosto de me expor.E,escrever,é justamente isso.
Seja através de poesias evidentemente confessionais,seja atráves de contos cujos personagens têm algum aspecto da minha personalidade aumentado.
O blog tem um número modesto de visitantes assíduos,é verdade.E um número ainda menor de visitantes que se manifestam.Mas eu nunca,nunca,me senti tão satisfeita com o que escrevo aqui antes.
Não é porque já completei 100 textos(bons,ruins e péssimos) escritos aqui em um espaço de 2 anos,mas porque o meu amadurecimento é tão evidente quando comparo o que escrevo hoje com os primeiros escritos meus que fiz questão de divulgar aqui.
Então,fica registrada aqui a minha vontade de continuar escrevendo,é claro que eu quero melhorar a qualidade da transcrição dos meus pensamentos/sentimentos.Mas sem muitas pretensões,claro.Afinal,das grandes autoras já foram todas,ou quase.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cotidiano

Jorge afastou o edredom e colocou-se para fora da cama.Moveu-se em passos lentos e pesados em direção a cozinha.
O filete de água bateu no fundo do copo até encher.
Virou-o,sedento.
Fez o caminho de volta na penumbra em que sua casa estava imersa,parou de chofre,na porta do próprio quarto.Há tempos ele não admirava como devia aquela silhueta.O edredom macio cobria o cetim,que costumava cobrir aquele corpo com sensualidade.No entanto,com o passar dos anos,tudo transformou-se em resignação.
Jorge deitou-se de costas para aquela figura. E passou a analisar cada pequeno fato que o tempo cruel fez questão de transformar em rugas.Depois de mais minutos do que ele seria capaz de contar,seu corpo sacudia em um pranto silencioso e intenso,embalado pela friagem que saía do ar condicionado.
Os primeiros raios de sol começaram a forçar passagem através da cortina,o vulto pesado ao seu lado começou a mexer-se. Jorge engoliu um último soluço,secou os olhos e murmurou uma desculpa sobre o travesseiro ensopado.
Foi ao banheiro e encarou a noite mal dormida que forjou-se em olheiras. Um suspiro profundo.
A vida seguiria como nos outros dias.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Como cetim.

As suas analogias esdrúxulas,
Abalam minha intelectualidade.
Seu hábito de dizer verdades pouco inocentes
Devolve-me mocidade.

Rir do que você diz
É esquecer o amor próprio
Ansiar para falar com você
É como ansiar por férias que terminarão em ócio.

Essas estrofes,no entanto,
Nada são se comparadas
Aos fatos.

É que eu apenas
Não tenho coragem
Para admitir que em mim residem hiatos.

terça-feira, 9 de março de 2010

As superfícies listradas.

Chloé encarou a superfície listrada do papel,sua visão ligeiramente obscurecida pelos cabelos negros. Resolveu transformar ,então, um verso esquecido em conto.
As emoções estavam tão espalhadas,distribuídas pelo seu ser,que provocavam um frio na barriga,uma sensação de borboletas no estômago,permanentes.

Chloé começou a divagar sobre a luminosidade fraca que entrava pela janela do quarto.

Eric encarou o violão incrédulo. Os acordes,ainda que belos,se excederam na complexidade,no sentido.
A música deixou de ser um modo de expor o próprio talento. Tornou-se uma confidente,invasiva como uma mãe.Seus sentimentos estavam expostos em uma feira de partituras que corriam soltas,quase livres.
Após algum esforço,terminou uma bela melodia.

Chloé estava maravilhada. Em um jorro súbito de inspiração,transformara aquele verso,pai solitário de um conto,em um poema com forma e esquema de rimas sofisticado. Era,na realidade,bem original.
Do alto do seu encantamento,no entanto,Chloé ainda não sabia que havia escrito a letra de uma canção.

terça-feira, 2 de março de 2010

O basculante.


Leonor pousou a xícara de café. Olhando para céu cinza através do basculante da cozinha chegou a leve conclusão de que não se arrependia de nada que tivesse feito.

Repetiu como um mantra que toda experiência,boa ou ruim acrescentava algo.Então,teve um estalo: A reunião dessas experiências torna cada um o que é.

Inconscientemente olhou para o seu reflexo disforme no basculante. A criatura pálida a encarou de volta.Nenhum traço marcante,nenhum talento,nenhum carisma.Apenas um coração de tamanho razoável.

Levantou-se da cadeira esfrangalhada e caminhou lentamente em direção a pia.

Lavou a xícara.

Sentou-se novamente.

A recente revelação ainda atordoava ao seu ser.

Leonor sacudiu a cabeça como se tentasse expelir algo dela.Divagações a esta altura eram algo inútil.Levantou-se e ruidosamente passou pela soleira da porta. Foi trabalhar.Manter sua vidinha classe média era a razão da sua existência.

Um dia,sua existência inconclusiva,associada à outras tantas faria algum sentido completo.

Ou não.