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sexta-feira, 12 de março de 2010

Cotidiano

Jorge afastou o edredom e colocou-se para fora da cama.Moveu-se em passos lentos e pesados em direção a cozinha.
O filete de água bateu no fundo do copo até encher.
Virou-o,sedento.
Fez o caminho de volta na penumbra em que sua casa estava imersa,parou de chofre,na porta do próprio quarto.Há tempos ele não admirava como devia aquela silhueta.O edredom macio cobria o cetim,que costumava cobrir aquele corpo com sensualidade.No entanto,com o passar dos anos,tudo transformou-se em resignação.
Jorge deitou-se de costas para aquela figura. E passou a analisar cada pequeno fato que o tempo cruel fez questão de transformar em rugas.Depois de mais minutos do que ele seria capaz de contar,seu corpo sacudia em um pranto silencioso e intenso,embalado pela friagem que saía do ar condicionado.
Os primeiros raios de sol começaram a forçar passagem através da cortina,o vulto pesado ao seu lado começou a mexer-se. Jorge engoliu um último soluço,secou os olhos e murmurou uma desculpa sobre o travesseiro ensopado.
Foi ao banheiro e encarou a noite mal dormida que forjou-se em olheiras. Um suspiro profundo.
A vida seguiria como nos outros dias.

2 comentários:

Edgard ♠♦O Pierrot♥♣ Antonello disse...

"Cotidiano de um casal infeliz", seria tristemente apropriado.
Agradeço muito os elogios e espero que aproveite todos os textos que tenho a oferecer, assim como tenho apreciado os teus.

Saudações do Pierrot.

Vanessa disse...

Nossa, que LINDO esse texto. Parabéns, Bárbara.