Translate

terça-feira, 2 de março de 2010

O basculante.


Leonor pousou a xícara de café. Olhando para céu cinza através do basculante da cozinha chegou a leve conclusão de que não se arrependia de nada que tivesse feito.

Repetiu como um mantra que toda experiência,boa ou ruim acrescentava algo.Então,teve um estalo: A reunião dessas experiências torna cada um o que é.

Inconscientemente olhou para o seu reflexo disforme no basculante. A criatura pálida a encarou de volta.Nenhum traço marcante,nenhum talento,nenhum carisma.Apenas um coração de tamanho razoável.

Levantou-se da cadeira esfrangalhada e caminhou lentamente em direção a pia.

Lavou a xícara.

Sentou-se novamente.

A recente revelação ainda atordoava ao seu ser.

Leonor sacudiu a cabeça como se tentasse expelir algo dela.Divagações a esta altura eram algo inútil.Levantou-se e ruidosamente passou pela soleira da porta. Foi trabalhar.Manter sua vidinha classe média era a razão da sua existência.

Um dia,sua existência inconclusiva,associada à outras tantas faria algum sentido completo.

Ou não.

Um comentário:

Fábio Racoski disse...

O medo de buscar sentido à vida é que esse sentido encontrado seja seu termo, seu ponto final.

Ah, Leonor...

(muito bom!)