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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Roadhouse Blues


Há dias em que a vida se parece com um longo dia cansativo, daqueles que a gente vai empurrando com a barriga na esperança de que o tempo passe mais rápido. Na maior parte desses dias, qualquer tolice é intolerável e as risadas tornam-se comparáveis a heresias. Em dias assim, há apenas sangue,suor e lágrimas.  O suicídio é o lugar comum,  a casa dos covardes e dos enjeitados.
E ainda existe o vazio. Ele é gigante, redondo e dentado, afiado por cada sombra da dor um dia sentida. Nem a música ensurdecedora parece capaz de vedar os pensamentos cruéis, afiados como navalhas. Mas ainda assim, a música me tornava real. Talvez eu não estivesse sóbria o suficiente para coordenar meus próprios passos, mas essa era uma verdade que ninguém poderia tirar de mim. Os gritos, os gemidos da guitarra davam a qualquer canto escuro o conforto de um lar. Nada de mãe chorosa no portão, nada de súplicas ao pé de uma cama de hospital.
A música é a única realidade que eu conheço e o meu maior desejo é conseguir sobreviver até semana que vem. Eu até poderia ter em mim todos os sonhos do mundo, mas alguns cigarros e umas doses de álcool podem me deixar contente. Eu troquei uma vida cheia de pequenas mentiras por uma em que a única verdade que eu conheço é aquela das sensações do momento. O consolo existia fosse em braços desconhecidos, fosse no fundo de copos encardidos. Família, amigos e pequenas convenções sociais não me importam mais. A vida, que sempre me parecera tão rica, agora é uma sequência de memórias descoloridas.
Eu não sei exatamente como isso aconteceu. Acendo um cigarro. Todos os dias tenho essa conversa insana comigo mesma, esse monólogo megalomaníaco assistido por uma pessoa só.  O cheiro do tabaco me conforta e, a essa altura, já nem consigo mais me sentir. Em algum momento, vou me levantar e tentar ficar firme o suficiente para ir procurar a próxima agulha que vai fazer casa nos meus braços. Pode ser que, no meio do caminho, eu esbarre com alguém tão perdido quanto eu. Ou pode ser que eu decida ir a um inferno diferente, não sei. Eu vivo a incerteza, o desnorteamento. Eu me esforço para continuar respirando e para não lembrar das coisas doces que já vivi. A memória é um torturados cruel e é por isso que tudo o que eu faço é com o objetivo de não lembrar pela manhã o que eu fui hoje. Eu sou Clarissa, e em breve estarei morta.
-Ei, não pode fumar aqui!
Respirei fundo, vesti minha sociabilidade do modo mais confortável que pude e saí do bar, ao encontro de lugar nenhum.

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