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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Infanto-juvenil

Amanda era o tipo de garota que pedia daiquiri de morango e tinha uma coleção de ursos panda de pelúcia. Era adorável sempre e simpática nas horas certas. Ela era um raio luminoso de sol, e era muito fácil comprar a ideia de que ela era feliz. Em nada Amanda se parecia com Laís. Enquanto ela era frágil e clamava por companhia, Laís gostava de tomar cerveja no gargalo em algum inferninho aleatório. Laís tinha alguma inclinação bizarra pelo obscuro e por tudo que tangenciasse perigosamente a auto-destruição. Alegria ao modo Laís sempre envolvia sarcasmo, comentário obscuros e risadas numa altura facilmente censurável. 

O único fato digno de nota que era semelhante entre elas era um amor louco e juvenil por Raul. Veja bem, se apaixonar na casa dos vinte acontece e desacontece com a maior naturalidade. Foi assim que aconteceu com Amanda pelo menos: Raul estava lá disponível e ela aproveitou. Claro que, no começo, nenhuma pessoa sã apostaria qualquer coisa num futuro onde os dois estivessem juntos. Mas acontece que comodidade e oportunidade tornam qualquer situação estável, e eles foram em frente, dois tolos que se consideravam felizes. 

Laís jamais esqueceria a sintonia que percebeu entre os dois quando os viu juntos pela primeira vez. Parecia ensaiado, verdade. Mas estava lá. E isso talvez fosse muito mais do que ela poderia dizer de qualquer um dos seus relacionamentos anteriores (inclusive daquele que teve com Raul). Claro, fazia tempo desde que ela e Raul se encararam como amantes pela última vez quando isso aconteceu, mas isso não impediu que um grande sentimento de posse crescesse. E foi aí que o 'e se?' começou a martelar como um surdo de escola de samba em suas divagações. 

Apesar de entender seu direito nulo de reclamar a posse de qualquer micromilímetro de Raul, Laís não conseguia se conter. E acabou, que no fim das contas, acabou se sentindo verdadeiramente culpada por ter partido o coração dele até não restar mais nenhum tipo de dignidade. Não foi por mal, eles eram jovens e ela era instável e ligeiramente perturbada. Mas aconteceu. Aconteceu e ninguém assumiu a responsabilidade por toda aquela merda. Havia uma esperança tênue, é verdade. E aí a Amanda a esmagou com seu furacão de tutti-fruti. 

Laís teve todo esse momento de reflexão num canto escuro que fedia a podridão. Nem os cigarros acesos compulsivamente afastavam o cheiro. A ideia de se envenenar aos poucos era poética e cheia de significado. As amarras sociais gritavam a estupidez daquilo e ela efetivamente se divertiu pensando no que Raul diria, do alto da sua boa-mocice, sobre aquilo. Talvez fosse a ideia da censura que a estimulasse a continuar com o mau hábito. Como se a fumaça solta em cada trago fosse a resposta afirmativa e certeira do 'e se?'. Amanda não conhecia o ocre do submundo, e isso dava a Laís uma felicidade tão grande que poderia soltar fumaça de tutti- fruti. E foi aí que a epifania, violenta como um soco, iluminou sua mente tal qual a faísca de um isqueiro: Ela não era a garota doce que se escondia num canto e se perguntava 'e se ?'.  Na verdade, essa era a maior vantagem que ela tinha em relação a sua agora rival.  A prova deveria ser tirada, a pergunta demandava resposta. Laís sabia muito bem jogar sujo e ter pena de fazê-lo não fazia, de modo algum, o seu feitio.





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